26 de dez de 2016

Lança

    Há palavra para todo tipo de gente e momento. Palavra doce, macia, melosa; palavra áspera, espinhosa, ácida; palavra que bate como o vento em nosso rosto e se dissolve em si própria. Gosto das precisas: palavras que sabem exatamente como se virar no ar e contorcer-se na mais formosa valsa antes de acertar o alvo exatamente onde deve; alvo que pouco antes nem sabíamos estar ali, e que agora se mostra desvelado, aplacado. O alvo está em nós, é claro; ou não está, como é o meu caso com a poesia. A mim, bem parece um torneio lírico de roleta russa, voando faca para todo lado e não acertando lugar algum; ou melhor, acertando lugar-algum.
    A valsa das palavras é muito característica de quem as lança e de quando as lança. Algumas mais cadentes, mais sólidas, mais míopes; ou talvez sistemáticas, confusas, inseguras. Se os olhos são a janela da alma, como ressoam os romancismos uníssonos, as palavras certamente são a porta da frente. São a comunicação entre a nossa casa solitária e o mundo. Mesmo quando carregam em seu ventre mentiras, são sempre sinceras; é na metapalavra que habita o que ela quer — mas raramente consegue — dizer. Ela grita, sorri, seduz, esperneia, oferece, mas não diz; ela em si é o dizer.
    Jogo agora facas para o alto de maneira simplória, com sérias dúvidas se verão nesta performance um minimalismo proposital ou uma limitação motora. Ou talvez sequer sejam capazes de observar os alvos que desejo acertar; é bem capaz que enxerguem apenas lâminas imbecis ao vento, e que seja eu o louco a lançar dardos na estrutura da estrutura, nas sombras do simbólico. Não se sabe; nunca fui capaz de antever os aplausos ou as vaias de uma plateia futura diante de um palco fantasma. Eu sei lá porque diabos continuo arremessando tanta parte de mim para fora desta minha ilha barulhenta e ao mesmo tempo tão silenciosa. Cogito se o faço só por fazer, ou se sou movido pela esperança de um dia alguém encontrar os alvos.