14 de fev de 2017

A mesa

    Passei semanas ziguezagueando pela casa, vivendo nela como se vive em qualquer outra casa: acordando, escovando os dentes de forma automática, passando diversas vezes pelos curtos corredores sem olhá-los nos olhos, feito uma formiga. Dentro daquelas paredes invisíveis — ocultas pelo tempo, pelo “acostumar-se” dormente e imperceptível —, praticamente vivi a rotina. Nunca estive ali, contudo; esteve apenas meu corpo. Os dois olhos sempre pregados em espelhos negros, acesos e iluminados com ícones, notificações, barras de brilho e volume. Ali, sim, vivi a rotina; não praticamente, desta vez, mas totalmente, de alma devota e presente, de atenção canalizada. Nas últimas semanas, não estive no quarto em que cresci, na casa de meus pais; estive em Pernambuco, conversando com um amigo de lá; estive aflito no Espírito Santos, com a deflagração do crime urbano; estive em Brasília, cheio de revolta, um momento antes de ser tomado por uma desilusão triste, resignada, sem qualquer esperança. Estive no fim dos anos setenta ao ouvir Willie Nelson e Jim Croce, estive nos confins de minha própria imaginação ao por o ponto final numa ficção que comecei há mais de um ano. Estive em Curitiba, refém de minhas memórias recentes e de meus anseios sobre um futuro que começa daqui a sete dias, na Psicologia.
    Agora mesmo, ao digitar estas palavras ocas sob o resquício de brisa noturna que entra pela fresta de minha janela nesta cidade quente, não estou propriamente aqui; estou focado neste trabalho tênue e [paradoxalmente] firme de tecelão, nesta transmissão tão linear e tão livre de ideias, que poderá calhar, algum dia, de cair à vista de leitores ocasionais, destes que as probabilidades cósmicas nos presenteam quando menos esperamos. Quando for o momento (momento este que você, leitor, chama de agora), estarei talvez dormindo, ou fazendo uma refeição no restaurante universitário, ou recomendando a algum amigo minhas descobertas musicais recentes, esperando que sintam cada “arrastar” de notas longas em toda a sua melancolia ou, a depender, em toda a sutileza de sua esperança tímida e apreensiva. Não sentirei uma pontada na coluna, ou mesmo uma quentura nas orelhas, ao que responderei como se responde a uma epifania: “Veja só! Tem alguém lendo algo que escrevi!”. Não. A coisa vem sem notificação; vem e vai embora, e nem se fica sabendo. Escrever isto aqui é como jogar palavra ao vento, como enterrar um tesouro [nem tão valioso] e jogar o mapa fora por não dar importância. Ao pensar em tudo isso, continuo fora de minha cozinha; continuo não vendo as paredes, os móveis, a desorganização que floresce nos meandros da vida cotidiana — essa marca de nós na casa, essa pitada humana nas coisas inertes.
    No entanto, perco-me por um segundo e observo a mesa; percebo então que ela é de madeira alaranjada, como de um laranja realmente vivo e alegre. Possui um verniz curioso, que, ao mais leve movimento, torna algumas listras desta madeira um pouco mais claras, assemelhando-se muito àquelas cartinhas holográficas. De repente, olho a mesa; assim, com um susto. Não, você não entendeu; realmente olho a mesa. Não apenas a miro com os olhos, mas a processo, a absorvo mentalmente. Vejo a mesa na minha frente, sob meus braços, como se nunca a houvesse visto na vida; como se tivesse brotado em minha frente de maneira súbita, tendo estado sempre ali.
    Não sei dizer com precisão por quantos anos temos esta mesa em casa. Nesses quinze anos (talvez), lembro-me de tê-la visto apenas no dia em que a compramos, numa loja de móveis seminovos na cidade vizinha. Do dia seguinte em diante, ela simplesmente desvaneceu, e o fez de forma tão quieta que, até o presente momento, eu nunca havia percebido seu sumiço.
    Tento fazer o mesmo, então, com o resto da casa. Vejo paredes brancas, que algum dia devem ter tido uma beleza generosa e elegante, apesar de não terem extravagância alguma, e que, hoje, já se demonstram amarelas e empoeiradas pelo peso dos anos. Vejo uma mariposa num canto, logo antes de perceber que é só um trinco no concreto. Vejo, mais longe, a quina metálica na qual abri dois pontos na testa em virtude de uma provocação infantil de meu irmão mais velho; havia me esquecido completamente disso, apesar de levar comigo uma cicatriz muito semelhante à do Harry Potter, bem como a memória de literalmente levar uma injeção na testa e atestar que a anestesia fora pior que o incidente. Vejo alguns ímãs de geladeira que remontam a praias que visitamos em fins de ano, quando ainda viajámos, há mais de uma década.
    Tenho medo. Medo de amanhã acordar e não ver nada disso; de continuar habitando paredes transparentes, impessoais, sem história, que sirvam apenas de palco invisível para uma vida virtual. Medo de algum dia acabar cometendo o mesmo erro — se é que já não cometi — com as pessoas; de olhá-las no rosto e não procurar o fundo de seus olhos, de não sentir mais aquele magnetismo que se sente quando se quer abraçar alguém. Tenho medo de viver uma ideia, de esquecer o presente, de viver com a cabeça no futuro e o coração no passado, ou mesmo o contrário. Tenho medo de continuar permitindo que o turbilhão mental me engula e me sequestre do aqui e agora, como faz a todo o momento.
    O que é este texto, aliás, senão um fluxo, um fragmento distendido desse turbilhão, exposto numa vitrine? Uma vitrine com endereço virtual, escondida a céu aberto, protegida pelo próprio desinteresse dos mal intencionados, que sequer chegarão a ler até aqui.
    Eu já não sei mais. Não que um dia tivesse sabido. É que estacionar um caminhão desgovernado parece sempre difícil, por mais que as flechas tenham sido, no caminho, arremessadas com precisão milimétrica.