22 de ago de 2016

Presente

    Olho para trás: nada do que já foi ainda é; restam apenas destroços. Olho para frente: encaro a incerteza nos olhos e o futuro se revela uma miragem; as ilusões desvanecem por completo. Olho ao meu redor e já não sei mais onde estou.
    Pensar no tempo significa sentir o passado te abandonar, furtando-lhe o chão de seus pés e toda a concretude das verdades que constituíam sua realidade. É sentir o peso dos ponteiros e perceber que a infância jamais voltará, embora seu gosto nostálgico te impregne pelo resto da vida.
    Já senti a inequívoca sensação de estar nos últimos dias de minha vida. Todo o calor, o sentido e as cores haviam me desertado. Porém, voltar às origens me fez bem; fui recuperado pelo sol das quatro que abraçava minha pele e projetava suas sombras mornas dentro da casa onde cresci. Eu gostaria de dizer que foi algo temporário, mas nada é tão simples assim. Melhorar exigiu justamente que eu percebesse que aquilo não era passageiro: que nada ia voltar ao normal, pois o normal ficou para trás. Isto, esta coisa estranha e amórfica que restou, é a vida — e é nela que devo me estabelecer, não nas ruínas das zonas de conforto hoje inexistentes.
    Foi com esta mesma dose de auto-honestidade que pude finalmente vislumbrar, nos meandros de um cotidiano embriagado de falsa estabilidade, um futuro vazio. A menos que algo seja feito em contrário, é para lá que rumo — para uma terra sem propósito, de solo estéril e insípido. Mas não! Não permitirei que o comodismo e a covardia me dominem. Se é para seguir os sonhos, que o façamos. Ainda que o custo seja alto, que pareça tarde, que a desaprovação seja grande. Não venderei minha alma ao demônio, tampouco me curvarei à tirania popular. Ao fim do dia, a aprovação última e também a mais importante será sempre a minha própria. Não permitirei que as traças corroam minha consciência por ter permanecido no erro evidente e inadiável, por ter cedido ao medo das dificuldades.
    Olho ao meu redor. Continuo sem saber onde estou. Desta vez, porém, sou capaz de me orientar no escuro do desconhecido. Desta vez, sei para onde ir.
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14 de ago de 2016

META

    Sonoridades retumbantes de sentido sutil e subjetivo. Ritmo cadente, veloz, disparado. Cada sílaba guarda uma harmonia poética. Uma melodia frasal se tece diante de nossos lábios e se dissolve no vazio do verso seguinte. Versos e contraversos projetam uma dança incerta, quase profética. E no silêncio que se segue, restam ecos de um sentimento revivido.
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Tenho sede

    É sede de conhecimento, de reconhecimento, de autoconhecimento. É água que desaba, entra, afunda, afoga. São braços que se agitam desesperados, tentando agarrar tudo a um só instante, contra o peso do infinito. É rebuliço incontrolável, angústia inquietante, impotência diante do magnânimo. É a secura de um sertão inundado, de possibilidades inexploradas, de desperdício temporal. São incontáveis futuros não materializados, potencialidades revogadas pela inércia.
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13 de ago de 2016

Primeiro passo

     Induzidos pela produção poética pretensiosa, seguimos em frente, desbravando um caminho quase inédito nas possibilidades das palavras. O sentido é fluido, inaprisionável, carregado de inconformidades emocionais. Os signos linguísticos pairam no ar, pouco convencidos de que alguém será capaz de pegá-los. Mas não seria esse o propósito, ou pelo menos um deles? Pois em não o sendo, por que compartilhar à eternidade virtual esta combinação de letras? Não seria mais fácil trancafiar pensamentos aleatórios num disco rígido qualquer, longe dos olhares curiosos dos juízes intransigentes? Seria, decerto; mas que graça restaria? A verdade é que não nos satisfazemos com nossa própria companhia. O ingrediente para apreciar a solitude ainda nos é segredo, talvez um dos mais importantes que só o tempo e as adversidades possam nos confidenciar. Na pior dos hipóteses, morreremos debaixo dos holofotes, condenados à incompreensão.
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