17 de nov de 2016

Sintonia

    Foi preciso que eu permitisse me desgastar, que estivesse sedado pelo cansaço, esvaziado da pressa que move o mundo e nos atropela; só então pude visualizar, no fim de um longo dia e ao som de uma leve esperança quase triste, a melancolia de meus irmãos de alma, filhos do meu tempo. Pude me olhar no espelho e ver minha geração sendo consumida pela própria solidão. Foi a tristeza acumulada de muito mais que duas guerras, de uma liberdade pisada, trancafiada, murcha. Foi o peso dos olhares lançados pelos adultos, com seus ternos finos e assuntos importantes, desqualificando tudo que não se encaixasse em seu mundo feito de concreto — cinza, quadrado, áspero, severo. E nos olhares desolados dos novos adultos, ainda (e para sempre) sonhadores pueris, pude ver uma nostalgia impossível que se voltava para o futuro: não um futuro jamais concretizado, mas um que tem todo o potencial para se fazer presente e não o faz. Uma solidão coletiva, tão dolorosamente coletiva, abafada pelas buzinas e despertadores, e agora finalmente tão nítida no silêncio.
    Romperemos o concreto, irmãos; já estamos fazendo-o há séculos, habitando os escombros desta loucura sóbria asfixiante, sempre resistindo. A arte é o efeito mais reluzente e onipresente desta resistência; é a marca permanente na história deixada por exilados de ideias. Na música, na literatura, nos abraços não registrados pelos livros: lá estão os que viram muito além do ego e que entenderam o incompreensível. Eles nasceram, viveram seu legado e morreram, e aqui estamos nós, repetindo seus passos como quem crê descobrir como andar, tateando e dançando no escuro da existência.
    E é na solidão de pensamentos insubordinados que os espíritos livres encontram companhia. É uma presença que transcende épocas e acomete os corações mais férteis de cada uma delas. Se você colocar a cabeça para fora da janela de casa, pouco antes do amanhecer, quando os únicos acordados são os passarinhos e alguns raios tímidos de sol, e, na brisa úmida e fresca, fechar os olhos, garanto que entenderá o que estou dizendo. É só ali que se mostra a tormenta harmônica e profunda de consciências: na calmaria inominável.